sábado, 5 de dezembro de 2009

Dos laços

Não lhes amei cada dia como um sempre
Não beijei-lhes as mãos por pedir proteção
Bem soubessem, este gesto solícito, perdoai
Carece a verdade das palavras vãs

Não me haveria de admirar o tempo antigo
Apequenou-lhes o ver lentamente, de sobejo
Da couraça em que as amarras vos sustentam
[aflitos
Em riso de dor choroso rastejo

Meus passos castrados
Meu livro em branco
O pranto no claustro
O silêncio do canto
[estão todos esparsos

Vejo o mundo por janelas alheias
Desvanecer-se no ar que não respiro
De meu punho as trovas de areia
vão sumindo na praia do suspiro

Laços de sangue são como cegas ataduras
Por isso meus dedos calejados

domingo, 22 de novembro de 2009

"el corazón, déjame libre!"

Quantas vezes quisestes voltar ao animal liberto para invejar-lhe as ancas mais as patas soltas e talvez confessar-lhe não reger sobre teu próprio sexo, e questionar-lhe como se corre, como se vive, como ser dono dos membros todos...

Se pudesses vê-lo nítido - com os olhos das mãos - pra afagar-lhe o pêlo de ouro e dizer-lhe no ouvido que antes fosse ele a razão pela qual vivia que o desejo simples de quebrar as correntes...

Mas as pessoas acobertam-se de razões anacrônicas para tolher a vida de quem ainda não vive...

Um resto de poeira luminosa pousa-lhe nas maçãs gélidas. Eis que avôa uma ave no horizonte sem cor.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Acorde!
Perceba esse dia que vem. Seu dia que envolve, assumindo as janelas. Esse dia, seu.

O Primeiro pequeno pensamento de uma alegria sonolenta é "hoje", e me levanto dos sonhos azuis.

Tome, abra seu presente, hoje te ligarão, apenas hoje será lembrado.

Quando tocados os pés no chão desperto meu livre "serei".

Compramos refrigerantes! Nossa sobrinha te mandou um cartão.

Leio estes recados. Atendo telefones mudos, todos virão.

Venha, acorde, sua festa está pronta, seus convidados, seu bolo.

Minha festa, meus convidados... este copo, o dia é meu?

O barulho de conversas e músicas incomoda as vidraças, apunhá-la as portas. Todos aqui, não os vejo, há ninguém. Nada corre ao meu comando. Procuro cegamente o beija-flor, parado, perdido, na esquina, mas o beija-flor não é meu . Estas pessoas que me desconhecem, este cartão, este bolo patético, não é meu, este dia, não me pertence. Que não há nada de especial aqui, entende?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Conselhos drummonianos

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo um ser a mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos."

C.D.A.



Eis um porquê...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


De que consistência se veste o interior de sua boca? Seria como polpa de uva madura, e úmida ou fresca e cálida? Será mordida, ou pura seria, ou será mole e entregue ou pudica?
Que fita borda sua calcinha? Quantos laços amordaçam-lhe o colo? Quais pintas salpicam seu corpo, quantas marcas elevadas na pele?
Quais palavras a fazem ruborecer? E o quão rubro se torna seu rosto? Terá o olhar doce transmutado em lascívia? Cobrirá com as mãos os seus olhos?
Que cheiro se exala dos cachos? Que contornos traçam-lhe a pintura? Será dúbia a cor de suas súplicas? Será terna ao pedir e ofertar? E quando somente em ser convertida, leremos sua verdade nas curvas? Expressa aos montes de orgasmos. Quantos? Diga-me quantos daremos? Qual a sua profundidade? Em tais paredes sanguíneas macias?
Profana-me. [Castiga-me eternamente] Como minha alma lhe profana o recato, como meus olhos lhe profanam as vestes,
sorvendo-te de glóbulos fervorosos...

domingo, 16 de agosto de 2009


Estes quase pelos forrando as coxas de dançarina ilúcida. Encontram-se ou repelem-se em fileiras erráticas pelo aperto das meias-calças. Respiram agora meio livres na pele, decaídos depois da marcha. Gloria, Gloria, sonha derretida, de membros confusos, como azeite acrescido em água, estão contidos nos panos mas se destacam fatigados. Os braços cativos que há pouco mordi, ali inertes para apreciação. Seu joelho flexionado, toda ela entregue, mais a mim que ao sono, como se fingisse marota, mas a pulsação é branda. Gloria dorme nas minhas pupilas.
Quando tateei sua nuca firme, como se me estalasse um ponto perdido dentro dos ossos, sofri num beijo doloroso de tão ardido, nas bocas despudoradas pelos anos distantes. Violentou-me com a língua sem palavra sequer, se tivéssemos esquecido os nomes, abandonados ficariam.
Revejo-a nos requebros desta noite, no espetáculo dos seios que iam e voltavam-se pelo passo rápido dos ombros, e vibravam insinuosos, fazendo-me fitar os mamilos duros feito faíscas num corpo nu. Tão mágica, quase perfeita em suas pontas agudas, seus rodopios...
Ela, nesse instante, vagueia por algum labirinto longínquo e eu me deixo observar o movimento de seus olhos encortinados... me faço lembrar de minha língua estendida, quase redonda nas esquinas de seu corpo, saliva pelos quatro vértices dos dedos do pé, que esfregavam-se então escorregadios, a boca que engole um joelho inteiro, qual fruta devassada por dentes, passei a ponta afinada, ainda gotejante, nas carnes por dentro das pernas, e suas mãos buscavam em vão vingar-se da tortura, rasgara o lençol, eu ria.
Aspirei aquele cheiro molhado, de mudar o branco dos olhos, sua púbis muito negra entreabrindo-se no meio da contorção, irradiando a umidade excessiva. E ouvindo o canto mais puro que uma voz pode oferecer, lambi-lhe os lábios engrossados em sangue, em movimentos tão leves e fundos que o gozo lhe pousou pesadamente: "Amor... amor, eu quero... morrer..." Rastejaram seus últimos gemidos; e eu dizia: Gloria.
Transbordou-se pelo cômodo e agora se condensou em cima da cama, pela última vez. Caiu deixando-me seu gosto impregnado. Rememorá-lo, farei. Mas ela ainda dorme com as pernas e a boca abertas pra mim. Depois de fixá-la assim lívida e superior, dançando nas nossas madrugadas, depois de de novo chupar seu suor, irei então, outra vez mais, irei...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Condição

O amor expõe todas as nossas fraquezas, as deixa eriçadas qual meninas no vento, as espalha num quarto fechado e de acolchoadas paredes. E dentro, maciços e submissos, estamos em concha hermética, apenas ali nos permitimos ser ridículos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009


Vocês que outrora escorriam de livros suas letras nuas, tão sábia mudez. Eram tanto taciturnos... entretanto falam, sorriem, são gente, meu Deus!
Se escrevem tal deuses que razão há de haver voz?
Que razão há de haver canto?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

São João

Restam as fitas amareladas
Meus pares menores não os tenho
[Sou ímpar]
Os joelhos me saltam das saias festivas
Os rostos recusam as pintas roubadas

Melinda


Nascida do pó das estrelas

E da água dos mares

Melinda era a senhora dos vales

Seus cabelos eram caudalosas cascatas

Seus olhos duas safiras suaves

E sua pele de nuvens de prata

Os dedos açucarados desenhavam a aurora

No hálito frio habitava o vento

A boca era rubra de amoras

E suas mãos amaciavam o feno

Possuía badulaques dos mais morosos

Por todos os mortais cobiçados

Um diamante reluzente a que chamavam Lua

Um doce gigantesco a que chamavam Astro

Melinda perambulava pelo céu

Para vigiar seus pertences na Terra

Numa mão a lua cor de mel

N’outra mão a lívida esfera

Quando Melinda avistava humanos

De machados munidos e foices afiadas

Olhava, angustiada, todo o campo

Esmorecendo num pranto de gotas douradas

Chorava por noites imensas

Num desejo vil de salvar seu paraíso

Os pássaros tristes e a relva tensa

Olhavam-se tácitos de prejuízo

Melinda secara todas as lágrimas

Fazendo os dias tornarem-se ocos

As cabras caíam desalmadas

E os rouxinóis engasgavam-se roucos

As borboletas esfarelavam-se em massa

O veludo das ovelhas se enegrecia

Tornavam-se opacas as acácias

De um amargo infinito era o sabor do dia

Até que vagarosamente as flores tímidas coravam

Despertava, ainda trôpega, Melinda

A dedilhar os dedos magros sob as nuvens que acordavam

E a derramar os cabelos por sobre a terra fina

E frutificava as árvores e verdificava os pastos

E outra vez alimentava seus algozes

Mas não se cansava em seus longos passos

Dormiria tranquila nos braços da morte

E tudo voltaria ao nada

Até brotar outra vez o que chamariam vida

Mas no pó das estrelas e na água dos mares

Jazeria Melinda profunda e esquecida.


P.s.: Abrindo seção de coisas medíocres (... nada o que fazer ...)